Câmara aprova novo Plano Diretor de Salvador
Fonte: Correio da Bahia (BA)
Após 39 horas de debates, maioria acata projeto do Executivo que irá modernizar a capital baiana
A
Câmara de Vereadores de Salvador aprovou ontem, às 14h30, o projeto de
revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU). A votação da
matéria durou pouco mais de 39 horas, numa sessão marcada pelo tumulto
e por debates intensos desde a última quarta-feira. Com 26 votos a
favor e 14 contra, o PDDU recebeu 159 emendas, das 273 que haviam sido
apresentadas.
Após
a apreciação da matéria, os vereadores votaram ainda o Orçamento do
município para o exercício fiscal de 2008, previsto em R$2.685.358.000,
e o projeto que autoriza o Executivo a firmar uma parceria público
privada (PPP) para contratar serviços de limpeza urbana e manejo de
resíduos sólidos, que incluiu também a criação de uma agência
reguladora para fiscalizar a prestação do serviço.
Os
pontos mais polêmicos no PDDU foram os que tratavam da verticalização
da orla, a ocupação da Avenida Paralela e a manutenção do formato
unidomiciliar no Caminho das Árvores. Os integrantes do PT, PSB, PPS,
PSDB e PCdoB votaram contra o projeto. Logo após a votação, os
comunistas se retiraram do plenário em protesto "à pressão exercida
pela prefeitura para garantir a aprovação do plano", afirmou a líder do
partido, vereadora Aladilce Souza. Uma comissão formada pelos
integrantes das cinco legendas será criada para analisar detalhadamente
cada emenda incluída no projeto.
Cansaço
- Para o líder governista, a votação foi desgastante, mas surtirá
"efeito prático, pois foi aprovado um projeto que contribuirá para o
desenvolvimento de Salvador". Para ele, o PDDU pode ser apontado como
um dos, senão o mais importante projeto da administração do prefeito
João Henrique (PMDB), que vai nortear os destinos da cidade para os
próximos oito anos.
O
líder da minoria, vereador Téo Senna (PTC), reafirmou a posição da
bancada de manter oposição ao prefeito João Henrique. No entanto, disse
que não poderiam votar por "mera questão político-partidária", contra a
população da capital, como fizeram os representantes do PT, PCdoB,
PSDB, PPS e PSB, todos com prováveis candidatos nas eleições municipais
de 2008.
"É
importante a gente deixar claro que esses cinco partidos são
co-responsáveis pelo sucesso ou insucesso da gestão João Henrique. Até
pouco tempo, eles comandavam - ou ainda comandam - pastas e cargos na
administração. Participaram, desde o início de 2005, da administração,
dando, inclusive, contribuições ao Plano Diretor. Portanto, não venham
cobrar coerência agora, já que são eles que estão agindo na contramão
do que, sempre pregaram".
Visivelmente
cansado, o presidente Valdenor ressaltou ainda que com a aprovação do
PDDU e do Orçamento, o Legislativo entra no período de recesso
parlamentar, "que terá a duração de 30 dias e se constitui no menor
recesso de todas as Câmaras municipais das capitais brasileiras". Os
trabalhos legislativos serão retomados em fevereiro, com a leitura da
mensagem pelo prefeito João Henrique.
Galerias
- Os três dias de votação do projeto de revisão do Plano Diretor foram
marcados por ânimos alterados, trocas de acusações, pedidos de
liminares e claques exaltadas. Durante as 39 horas de votação,
representantes de entidades de classe e da população se dividiram entre
favoráveis e contrários nas galerias da Câmara. Muitas foram as vezes
em que a sessão teve que ser suspensa. As manifestações também
ocorreram em frente ao Paço Municipal.
De
acordo com o presidente Valdenor Cardoso, a Mesa Diretora manteve-se
calma durante todo o tempo, conseguindo contornar as situações
conflitantes tanto no plenário e como nas galerias. "Ao final, ficou a
lição de civismo e cidadania", como completou o democrata Antonio Lima.
Prefeito comemora resultado
Estão
abertas as portas para reformas urbanas mais consistentes na capital do
estado. Autor da análise, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB)
comemorou, na tarde de ontem, a aprovação do PDDU pelo Legislativo
municipal. Com horizonte de dez anos e objetivo de modernizar a cidade,
o projeto é a principal ação da administração de João Henrique. Já
prevista pelos analistas, a vitória na Câmara foi recebida com
tranqüilidade e serenidade por João Henrique, contou sua assessoria.
Uma nota foi distribuída logo após a conclusão da votação na Câmara.
Pela
manhã, em evento na Associação Comercial da Bahia (ACB), o prefeito já
havia comentado que, com o PDDU, a capital consolidará sua posição de
maior economia da região metropolitana de Salvador (RMS) - o posto de
maior Produto Interno Bruto (PIB) da área era de Camaçari até dois anos
atrás. "A gente pode esperar que Salvador, em breve, ingresse naquele
time das 30 cidades mais poderosas do mundo", ressaltou. João Henrique
planeja agora concentrar mais forças na remodelação da orla, que
pretende entregar até o próximo Verão.
Conforme
o diagnóstico do prefeito, na competitividade do mundo atual, ou
Salvador avançava agora, criando melhores condições de
competitividades, ou continuaria perdendo terreno, até para municipios
menores. "(Salvador) É uma cidade que não merece ficar como nos últimos
anos, dormindo em berço esplêndido e vendo cidades próximas levarem
nossos turistas, nossos empresários e até nossos residentes".
Na
nota à imprensa, João Henrique destacou que a Câmara "cumpriu com
louvor a sua missão" ao votar o PDDU depois de "exaustivo debate e
livre apreciação de todo o seu conteúdo pelos representantes da
população". Desde 2005 foram promovidos mais de 60 eventos para
discussão da proposta original, informou.
A
aprovação do plano diretor foi enaltecida também no partido do
prefeito. O presidente estadual do PMDB, Lúcio Vieira Lima, manifestou
satisfação pelo resultado da votação, pois a legenda apoiou a
proposição, e pelo comportamento do prefeito, que manteve a matéria
mesmo com pressões no Legislativo e no Judiciário. "Nem o PMDB nem a
população poderiam esperar outra coisa do gestor da maior cidade da
Bahia", frisou.
A
proposição é dividida em cinco itens: maior competitividade e estímulo
à atividade econômica; conservação dos ecossistemas e recursos
naturais; melhor organização da sociedade e democratização das
instituições; redução da pobreza e desigualdades sociais e ordenamento
do crescimento urbano municipal. "Foi feito um estudo caso a caso",
frisou Lúcio Veira Lima, que vê na proposta um passo importante para a
desfavelização das áreas mais carentes. "Para isso, foi preciso
ousarmos mais uma vez, ao agregar modernidade ao plano diretor e
estabelecer regras claras e diligentes para promover o ordenamento do
território e o desenvolvimento socioeconômico da cidade e de seu povo",
comenta João Henrique.
Revisão da bancada
Como
resultante da tumultuada tramitação do PDDU - quando partidos da base
aliada atuaram como oposição - uma "revisão" na bancada do governo
deverá ser feita pelo prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) até o
Reveillon ou, no máximo, no começo do próximo mês. O gestor avaliou a
postura dos aliados como "maneiras diferentes" de ver a cidade -"são
pontos de vista que podem diferir aqui e ali" -, mas revelou o desejo
de saber "quem é verdadeiramente da base de apoio da prefeitura".
Segundo a vereadora Vânia Galvão (PT), os petistas não pensam em mudar
de postura política na Câmara.
"Nós
só fomos contra o prefeito no que se refere a este projeto",
esclareceu. Olhar semelhante tem o presidente do PMDB, Lúcio Veira
Lima, que viu o comportamento do PSB, PPS e PT como pontual, enquanto
PCdoB e PSDB já haviam saído da base. Concentra-se nestes dois partidos
a insatisfação do dirigente partidário. "Lamento apenas eles estarem
fazendo uma oposição irresponsável, que é o ser contra tudo, ser contra
porque vem da prefeitura".
O
vereador Celso Cotrim (PSB) já anunciou que o processo de votação do
PDDU marca sua mudança para a oposição. "Os métodos que ele usou para
aprovar o PDDU não são condizentes com aquilo que eu acredito", afirmou
Cotrim, que, durante a tramitação do projeto solicitou a destituição do
presidente da Casa, Valdenor Cardoso (PTC). Ao assinar decreto que
prorroga incentivos fiscais na região do Comércio, João Henrique
destacou que um instrumento como o PDDU, "com essa complexidade
técnica", não pode ser apreciado "simplesmente com avaliações
políticas".
O
decreto prorroga por mais um ano a lei que concede, a depender da
atividade e da localização, até redução da aliquota do ISS de 5% para
2% e a isenção de IPTU e Imposto sobre Transmissão de Intervivos (Itiv).
Opositores prometem recorrer à Justiça
Durante
o processo de votação que invadiu a madrugada, prosseguiu pela manhã e
terminou no início da tarde de ontem, foram 39 horas de uma sessão
tensa e tumultuada. A líder do PcdoB, vereadora Aladilce de Souza,
informou que "vão acionar a Justiça para que o processo de votação seja
anulado, diante das aberrações orquestradas pelo líder do governo,
Sandoval Guimarães, e compactuadas pelo presidente da Câmara, Valdenor
Cardoso (PTC)".
Aladilce
acusa a Casa de não ter respeitado o rito normal de votação, como
ausência do parecer de muitas comissões técnicas, que sequer haviam se
posicionado sobre o texto do projeto. Segundo o presidente da Comissão
de Planejamento, José Carlos Fernandes (PSDB), que leu o relatório do
colegiado contrário à matéria na madrugada de ontem, "a Câmara errou"
ao dar prosseguimento à apreciação de um projeto que já estava sub
judice desde 2004.
Com
base no Regimento Interno da Casa, o presidente Valdenor havia lido, na
quarta-feira, durante o início dos trabalhos, o rito de votação do
PDDU, alterado diversas vezes pela maioria. A previsão inicial era que
o projeto fosse votado em quatro discussões: primeira votação do
projeto; segunda discussão analisando artigo por artigo, num total de
347; terceira discussão, com as 273 emendas; e a quarta, com o texto
final com as modificações introduzindas com as emendas. No entando, o
processo foi modificado.
Ainda
na quarta, às 19h10, o projeto passou em primeira votação. À
meia-noite, o rito mudou e, em vez da apreciação das emendas, começou a
ser discutido cada um dos dez títulos. Como a sessão já estava entrando
no terceiro dia consecutivo de votação, o líder governista, Sandoval
Guimarães, solicitou a apreciação geral, finalizando a segunda
discussão às 2h30 de ontem.
Logo
em seguida, às 3h, deu-se início à apreciação das emendas, que se
estendeu até as 14h de ontem. Segundo o presidente da Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ), vereador Gilberto José (PDT), das 273
apresentadas, 114 foram rejeitadas. Às 14h30, a matéria foi votada na
redação final.
Recursos do PAC
Em
novembro, a Câmara havia aprovado um projeto de autoria do Executivo
que instituía 13 logradouros da capital como áreas especiais de
interesse social (Aeis). Apesar de estar previsto inicialmente no PDDU,
a matéria foi desmembrada, tornando Salvador apta a receber recursos do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas áreas de saneamento e
habitação.
A
expectativa é que sejam beneficiadas as comunidades de Gamboa de Baixo/
Unhão; Pilar; Baixa do Cacau; Rua Amazonas/ Cabula; Alto do Bom Viver;
Parque Jacélia; Praia Grande; Pirajá; São Tomé de Paripe; Vila Coração
de Jesus; Vila Nova Esperança e Nova Esperança/ Barro Duro, localizadas
entre a rodovia CIA/Ceasa; além da previsão de executar um "conjunto de
edificações no Centro Histórico de Salvador, às ruas São Francisco, 3
de Maio, 28 de Setembro, 7 de Novembro, Saldanha da Gama e Guedes de
Brito", como descreve o projeto.